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Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia

Artigo : Desfechos da Gravidez Após Cirurgia Bariátrica – Outcomes of Pregnancy After Bariatric Surgery

NEJM 372; 9 26 de FEVEREIRO 2015

O interessante neste artigo é discutirmos tema com tão pouca evidência na literatura, a gravidez após cirurgia bariátrica. Em nosso serviço da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), no pós bariátrica nos deparamos diversas vezes com a gestação não planejada da paciente, principalmente entre o primeiro e segundo ano pós cirurgia. Isto fez com que passássemos a orientar sobre planejamento familiar antes mesmo da cirurgia ocorrer.

INTRODUÇÃO

A obesidade na mãe é fator de risco para Diabetes Gestacional, com risco aumentado de macrossomia, complicações do parto, obesidade no bebê, e desenvolvimento tardio de Diabetes tipo 2 na mãe. Também associada a aumento de óbito neonatal, parto pré-termo e má-formações congênitas e um risco reduzido de bebês pequenos para idade gestacional.
Entre pacientes com Diabetes tipo 2 a cirurgia bariátrica resulta em maiores taxas de remissão de Diabetes e prevenção de Diabetes se comparado com terapia convencional para obesidade.
A maioria dos estudos sobre efeito da cirurgia bariátrica no Diabetes Gestacional são pequenos com resultados inconclusivos e muitos destes estudos não consta o IMC pré-cirúrgico.
Este estudo foi conduzido com dados obtidos da base de dados nacional da Suécia incluindo informações de IMC pré cirurgia entre mulheres que fizeram cirurgia bariátrica. Foi investigado o risco de Diabetes Gestacional e eventos perinatais adversos entre mulheres com histórico de cirurgia bariátrica comparado com mulheres sem histórico de cirurgia, mas com características semelhantes.

MÉTODOS

Estudo populacional, coorte, usando dados registro nacional saúde Suécia desde 1973. Foram selecionados os nascimentos entre 2006 e 2011 dentre mulheres que fizeram bariátrica entre 1983 e 2011. Das pacientes em pós bariátrica , 6% haviam sido reoperadas. A coorte controle foi composta por mulheres grávidas sem histórico de cirurgia bariátrica . As variáveis pareadas entre os dois grupos foram : idade (com diferença máxima de 1 ano para mais ou menos entre controle e caso), paridade (nulípara ou primípara), Índice de Massa Corporal (IMC) pré – cirurgia, tabagismo, nível educacional e data do parto.
Os desfechos foram : Diabetes gestacional, bebês grandes para Idade Gestacional (GIG), baixo peso ao nascer, macrossomia, parto pré-termo, morte fetal após a vigésima segunda semana, morte neonatal (morte antes de 28 dias de vida) e má-formações congênitas.

RESULTADOS

Pacientes pós-bariátrica tiveram 1,9% de Diabetes Gestacional enquanto as da corte controle, 6,8% (p<0,01 e 95% intervalo de confiança). A média de tempo gestacional quando o diagnóstico foi feito foi de 32 semanas. Pacientes com histórico de cirurgia tiveram menor risco de bebês grandes para idade gestacional e de macrossomia. Porém, maior risco de bebês pequenos para idade gestacional e gestações mais curtas ( 273 dias X 277,5 dias do grupo controle, com p<0,01). O principal resultado no entanto é que o risco de morte fetal após a vigésima segunda semana e morte neonatal entre as pacientes já operadas foi de 1,7% contra 0,7% no grupo controle (p=0,06 – 95% IC).

DISCUSSÃO

Neste estudo de coorte prospectivo de base populacional, mulheres com histórico de cirurgia bariátrica tiveram menor risco de Diabetes Gestacional e bebês GIG e um aumento de bebês PIG e gestação mais curta em dias do que o grupo controle. Também foi observado maior risco de morte entre a 22ª semana intra –útero e até 28 dias após o parto dentre os bebês de pacientes pós-bariátrica embora estes eventos tenham sido incomuns e com significância limítrofe (p=0,06).

Importante ressaltar também que neste estudo a mediana do intervalo entre cirurgia e concepção foi de 1,1 anos o que demonstra que muitas mulheres continuaram a perder peso durante a gravidez. Esta perda de peso contínua pode afetar a nutrição fetal e pode influenciar o risco de nascimentos pré-termo.

Não houve aumento do risco de malformações congênitas entre os bebês de pacientes pós-bariátrica.
As limitações do estudo foram: o desenho não permite que determinemos “causa e efeito” já que tratou-se de estudo observacional, podem haver variáveis confundidoras já que as mulheres que realizam cirurgia bariátrica são diferentes das pacientes controle e estas têm suas condições de saúde mais vigiadas. Outra questão é que as pacientes pós bariátrica em sua maioria, são inférteis antes da cirurgia e no grupo controle, apesar de pareadas para o mesmo IMC , as pacientes são férteis. Além disso, o grupo controle parece ser mais saudável.
Ainda cita o autor, como possíveis limitações: população praticamente toda de raça branca, o que faz com que os resultados não possam ser generalizado para outras raças. Além disso, o intervalo entre a cirurgia e a concepção foi em sua maioria de 1 ano e 1 mês, com um máximo de 4 anos e 3 meses fazendo com que os resultados reflitam apenas este período.

A conclusão do estudo é de que ter realizado a cirurgia bariátrica antes da gestação reduziu o risco de diabetes gestacional e bebês GIG. Apesar de que é associado com bebês PIG, gestações mais curtas e potencialmente um aumento da morte entre a 22ª semana de gestação e até 28 dias após o parto.

No editorial publicado na mesma edição, Aaron B. Caughey lembra que a American College of Obstetricians and Gynecologists (ACOG) orienta que as pacientes pós cirurgia bariátrica devem atrasar a concepção para 1 a 2 anos após o procedimento. Além disso, deixa em sua conclusão que as decisões de operar pacientes em idade reprodutiva devem levar em conta os benefícios e riscos associados a este procedimento e à gravidez.

Dra. Cristina Schreiber – Presidente da Comissão de Novas Lideranças


Posted by admin on julho 22nd, 2015 :: Arquivado em Diabetes,Endocrinologia,Gestação
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