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Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia

Câncer da Tireoide: Epidemia da Doença ou Epidemia de Diagnósticos?

Recentemente uma pesquisa publicada numas das mais conceituadas revistas sobre o assunto nos EUA, JAMA Otolaryngology-Head & Neck Surgery, apontou que a incidência de câncer de tireoide praticamente triplicou desde 1975, saltando de 4,9 para 14,3  casos para cada 100.000 pessoas. Os dados foram obtidos da uma das instituições governamentais que recolhe dados sobre a incidência de câncer nos Estados Unidos (SEER).

A primeira vista o que se poderia concluir é que a doença vem aumentando na população, mas uma análise mais detalhada dos dados evidenciou que mesmo havendo mais casos de câncer de tireoide atualmente, a mortalidade pela doença continua a mesma, ou seja baixa. Este dado caminha em conjunto com os dados de necropsia que mostram que a doença da tireoide é comum, porém poucos casos de óbitos são atribuídos a ela.

O tipo de câncer mais encontrado foi o câncer papilífero de tireoide, um subtipo de baixa agressividade que tem taxas mortalidade muito baixa em 20-30 anos. Foi mais encontrado em mulheres, na proporção de 3 casos para cada caso achado em homens. Este dado vai em contrário aos dados de necropsia que mostram que a incidência em homens é semelhante ou maior que em mulheres. A conclusão da pesquisa é que tem havido um bum de diagnósticos basicamente pela realização de mais exames de imagem (ultrassonografia de tireoide) em check-ups dos pacientes, ao acaso mesmo sem a presença de sintomas relacionados a tireoide ou  na investigação de doenças como obesidade ou obstruções arteriais cervicais.

“A incidência de câncer de tireoide está em proporções epidêmicas, mas não parece uma epidemia da doença, parece mais com uma epidemia de diagnósticos” afirma o líder da pesquisa, Dr. H. Gilbert Welch.

A consequência deste aumento no diagnóstico, é um possível tratamento excessivo de casos que provavelmente não progrediriam a ponto de comprometer a saúde dos pacientes. O grande problema é que, como existe uma mínima parcela dos casos que pode evoluir negativamente e atualmente ainda não existe uma ferramenta que esclareça quem são esses casos, a grande maioria dos pacientes com o diagnóstico de nódulos de tireoide vão ser submetidos a procedimentos invasivos como a biopsia de tireoide e eventualmente serão encaminhados para a cirurgia.

O interessante é que nenhuma das principais de sociedades de endocrinologia, quer a Brasileira, Latino-Americana, Estadunidense ou Europeia recomendam o rastreamento de doenças malignas de tireoide na população em geral. Faz-se exceção as pessoas que tenham fatores de risco como: história familiar de câncer de tireoide ou radioterapia cervical para tratamento outros tipos de câncer.

Em cima deste dados Dr. Welch comenta que assim como alguns casos de câncer de próstata, outro tumor de crescimento lento, os pacientes com o diagnóstico incidental, durante check-ups, de câncer de tireoide poderiam ter a opção de seguí-los de perto o que poderia evitar tratamentos mais agressivos sem a comprovação de benefício para o paciente.

Referência:

·      Louise Davies, MD, MS; H. Gilbert Welch, MD, MPH Current Thyroid Cancer Trends in the United States.  JAMA Otolaryngol Head Neck Surg. Published online February 20, 2014. doi:10.1001/jamaoto.2014.1

Att.,

Felipe Henning Gaia Duarte 

Doutor em Endocrinologia pela Faculdade de Medicina da USP

Especialista em Endocrinologia e Metabologia pela Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia – SBEM

Consultório: Rua Antonio Joaquim de Moura Andrade, 315, Vila Nova Conceição, São Paulo. Fone: 11 4305-6070

www.drfelipegaia.com.br


Posted by admin on março 12th, 2014 :: Arquivado em Pesquisa,Tireóide
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