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Blog da SBEM
Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia

Novo Posicionamento da Endocrine Society sobre Diagnóstico e Tratamento da Síndrome dos Ovários Policísticos

A Endocrine Society publicou em dezembro de 2013 seu novo posicionamento sobre o diagnóstico e tratamento da Síndrome dos Ovários Policísticos (SOP) baseado nos principais estudos sobre o tema (Diagnosis and Treatment of Polycystic Ovary Syndrome: An Endocrine Society Clinical Practice Guideline. Legro et al. J Clin Endocrinol Metab, December 2013, 98(12):4565–4592).

O diagnóstico de SOP em mulheres adultas se baseia nos critérios de Roterdã (presença de dois dos três critérios: hiperandrogenismo clínico ou laboratorial, disfunção ovariana ou ovários policísticos (tabela 1) (Obs: todas as tabelas foram adaptadas do artigo).

Tabela 1 – Critérios diagnósticos da SOP e análise crítica baseada na metodologia do workshop baseado em evidências do NIH

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No entanto, antes de confirmar o diagnóstico de SOP é necessário realizar a exclusão de diagnósticos diferenciais  de alterações de tireóide, hiperprolactinemia e hiperplasia adrenal não clássica em todas as mulheres (tabela 2).

Tabela 2 –  Diagnósticos diferencias a ser excluídos em todas as mulheres com suspeita de SOP

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De acordo com os sintomas apresentados pelas pacientes, outras situações clínicas também devem ser consideradas durante a investigação da SOP ( tabela 3).

Tabela 3 – Condições clínicas que devem ser consideradas no diagnóstico diferencial da SOP

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* Adicionalmente outras causas podem mimetizar SOP que não estão na tabela por serem muito raras, dentre elas outras formas de hiperplasia adrenal congênita, alterações genéticas relacionadas com o metabolismo de andrógenos, uso de drogas, síndromes de resistência a insulina, etc.

A primeira consideração importante a ser feita, é sobre a problemática de utilizar os critérios de Roterdã em adolescentes ou mulheres na menopausa. Nas adolescentes, o diagnóstico deve ser baseado em hiperandrogenismo clínico ou laboratorial associado a oligomenorreia. Sintomas anovulatórios e ovários policísticos (OP) podem acontecer em estágios normais da maturação. Nas mulheres na menopausa e peri-menopausa, é feito um diagnóstico presuntivo baseado na história prévia bem documentada de oligomenorreia e hiperandrogenismo durante os anos reprodutivos.

O atual posicionamento também sugere que as seguintes situações ou comorbidades sejam avaliadas:

  • Manifestações cutâneas (hirsutismo, acne, alopécia, acantose nigricans e pólipos cutâneos);
  • Status ovulatório de todas mulheres que querem engravidar através da história menstrual. A dosagem de progesterona no meio da fase lútea pode ser útil em mulheres eumenorreicas;
  • Outras causas de infertilidade em casais buscando fertilidade;
  • Índice de massa corporal (IMC) e circunferência abdominal de todas mulheres com SOP devido a associação com obesidade;
  • Rastreamento de diabetes e intolerância a carboidratos através de teste de tolerância oral a glicose (TTOG) em adolescentes e adultas, sendo que hemoglobina glicada em conjunto com glicemia de jejum pode ser utilizada em quem não consegue completar o teste (reavaliação em 3-5 anos ou se fatores de risco piorarem);
  • IMC, pressão arterial e TTOG antes da concepção para diminuir risco de complicações na mesma (parto pré-termo, pré-eclampsia e diabetes gestacional);
  • Depressão e síndrome da apneia obstrutiva do sono (SAOS), se sintomas compatíveis;
  • Rastreamento de fatores de risco cardiovasculares (Risco: obesidade principalmente centrípeta, tabagismo, hipertensão arterial, dislipidemia – aumento de LDL e/ou diminuição de HDL, doença vascular subclínica, intolerância a carboidratos, história familiar de doença cardiovascular prematura – homens <55 anos e mulheres <65 anos. Alto Risco: diabetes mellitus, síndrome metabólica, SAOS, doença vascular ou renal);
  • Doença hepática gordurosa não alcoólica, advertem pra possibilidade de mas não recomendam seu rastreamento de rotina e;

Neste artigo não são recomendados o rastreamento de rotina para câncer endometrial ou avaliação de rotina de alterações fetais intrauterinas.

Desde que não exista contraindicações (tabela 4), os contraceptivos hormonais são o tratamento de primeira escolha para as pacientes com SOP apresentando irregularidade menstrual, hirsutismo ou acne secundários (ver posicionamento da Endocrine Society sobre hirsutismo em mulheres na pré-menopausa – J Clin Endocrinol Metab: 93 (4), 1105-1120, 2008).

O incentivo à perda de peso nos pacientes com sobrepeso/obesidade é benéfica para a função metabólica e reprodutiva e deve ser feita com dieta hipocalórica e atividade física regular. Perda de peso não beneficia pacientes com peso normal e SOP. Além disso, recomenda-se atividade física regular para diminuir o risco de eventos  cardiovasculares e diabetes.

Tabela 4 – Considerações sobre o uso de contraceptivos hormonais, incluindo pílula, patch e anéis vaginais em mulheres com SOP  baseadas em condições relevantes

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#: Se gravidez ou doença subjacente (ex: doença maligna na pelve) é suspeita, deve ser avaliada e  categoria ajustada depois da avaliação.

&: A categoria é colocada de acordo com a severidade da doença

Em relação a metformina, indica-se que deve ser o tratamento de escolha quando paciente apresentar diabetes ou naqueles com intolerância a carboidratos que não conseguiram melhorar com mudança de estilo de vida (MEV). Este medicamento pode ser segunda escolha em pacientes com irregularidade menstrual com contraindicação ou intolerância a contraceptivos hormonais. Não é sugerido seu uso como tratamento primário de manifestações cutâneas, prevenção de complicações da gravidez ou tratamento da obesidade.

No tratamento da infertilidade, é orientado o uso de citrato de clomifeno como primeira linha de tratamento da infertilidade anovulatória. Em mulheres que serão submetidas a fertilização in vitro, sugerem o uso adjuvante de metformina para prevenir síndrome da hiperestimulação ovariana.

Não recomendado o uso de sensibilizadores de insulina como inusitóis (falta de benefício), tiazolidinedionas (questão de segurança) ou estatinas para tratamento de SOP. As indicações de estatina são as habituais.

André Camara de Oliveira
Membro especialista da SBEM

Felipe Henning Gaia Duarte
Membro especialista da SBEM
Comissão de novas lideranças 


Escrito por admin em março 25th, 2014 :: Arquivado em Endocrinologia,Ovários Policísticos
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Metformin for the Treatment of the Polycystic Ovary Syndrome. N Engl J Med. 2008 Jan 3;358(1):47-54.

John E. Nestler, M.D.

Resumo feito pelo Dr. Alexandre Hohl (Comissão de Novas Lideranças)

O diagnóstico da síndrome dos ovários policísticos (SOP) é realizado pela presença de duas ou mais das seguintes características: oligo-ovulação crônica ou anovulação, excesso de andrógenos e ovários policísticos (imagem ultrassonográfica). Afeta 5 a 10% das mulheres em idade fértil e é a causa mais comum de infertilidade anovulatória em países desenvolvidos. As manifestações clínicas mais comuns incluem irregularidades menstruais e sinais de excesso de andrógenos, tais como hirsutismo, acne e alopecia.

O artigo do NEJM apresenta um caso clínico clássico de uma mulher de 23 anos com história de SOP. A paciente é obesa (IMC 32 kg/m2 e cintura abdominal 96,5 cm), com níveis de testosterona elevados e dislipidemia (HDL-colesterol baixo e triglicerídeos elevado). Apesar da história familiar (pai e mãe) de diabetes mellitus tipo 2 (DM2), o teste oral de tolerância à glicose (TOTG) da paciente é normal (glicemia 2 horas = 138 mg/dL). A discussão terapêutica do caso está no uso de metformina nesta paciente.

A resistência à insulina resulta em uma hiperinsulinemia compensatória, que estimula a produção de andrógenos ovarianos por ovários geneticamente predispostos à SOP. A anovulação pode ser causada pela secreção anormal de gonadotropinas – FSH e LH (talvez induzida por hiperinsulinemia), pelo excesso de andrógenos intra-ovarianos, pelos efeitos diretos da insulina ou pela combinação destes fatores. A resistência à insulina, juntamente com fatores genéticos, pode também conduzir a hiperglicemia e ao perfil de fatores de risco cardiovascular.

A metformina melhora a sensibilidade à insulina e pode retardar ou impedir a progressão para DM2 em pacientes com intolerância à glicose. Embora estudos com a metformina não mostrarem especificamente a redução de risco de eventos cardiovasculares em doentes com SOP, ela diminui os níveis circulantes de andrógenos e pode melhorar a fertilidade, a ovulação e o ciclo menstrual.

Chama-se atenção ao fato de que o tratamento da paciente envolve a perda de peso com mudança de estilo de vida (reeducação alimentar e atividade física) e o tratamento da dislipidemia. Sabe-se pelo estudo DPP (Diabetes Prevention Program) que enquanto a metformina previne o DM2 em 31% dos pacientes com intolerância à glicose, a mudança de estilo de vida foi efetiva em 58% dos pacientes.

Embora a paciente esteja com a tolerância à glicose normal, o autor acredita que o tratamento com metformina seja razoável, associado ao incentivo da perda de peso, dieta e exercício físico. Ele sugere ainda reavaliações clínicas a cada 3 meses no primeiro ano e repetição do TOTG a cada 2 ou 3 anos.


Escrito por admin em março 18th, 2008 :: Arquivado em Ovários Policísticos