Atualizações em Endocrinologia – Parte 2
Pasireotide no tratamento da Doença de Cushing
Comentário do artigo: A 12-Month Phase 3 Study of Pasireotide in Cushing’s Disease. Colao et al. N Engl J Med 2012;366:914-24.
Caros colegas,
Nesta postagem vou comentar o artigo sobre o estudo de fase 3 do pasireotide para o tratamento da Doença de Cushing, publicado pela Annamaria Colao e que contou com a participação do Dr. Luiz Roberto Salgado. Como todos sabem, a Doença de Cushing (DC) é uma condição rara, mas associada a complicações importantes incluindo aumento da mortalidade. A cirurgia transesfenoidal é o tratamento de escolha, com taxas de remissão na ordem de 65-90% em mãos experientes. Contudo, a definição de remissão é variável e, além disso, ainda ocorre recorrência em cerca de 30% dos casos. Portanto, muitos pacientes com DC necessitarão de tratamento de 2ª linha, como reabordagem cirúrgica, radioterapia, adrenalectomia ou tratamento medicamentoso. Com relação ao tratamento medicamentoso, não existem grandes estudos prospectivos randomizados que tenham testado as drogas atualmente disponíveis. Por lado, adenomas corticotróficos expressam receptores de somatostatina, predominantemente o subtipo 5. O pasireotide (anteriormente mais conhecido como SOM230) é um análogo de somatostatina que se liga a 4 dos 5 receptores de somatostatina, com alta afinidade pelo subtipo 5 e essa característica é o racional para a realização desse estudo, que avaliou prospectivamente a utilização dessa medicação para o tratamento da DC.
Foram avaliados pacientes com DC recorrente ou persistente, ou pacientes com DC que não eram candidatos a cirurgia. Foram excluídos os pacientes com radioterapia prévia, compressão do quiasma óptico, colelitíase sintomática e HbA1c >8%. Enfim, 162 pacientes foram aleatoriamente designados para receber pasireotide por via subcutânea em doses de 600 mcg (82 pacientes) ou 900 mcg (80 pacientes) duas vezes ao dia. A metodologia do ajuste da dose foi um pouco complicada: os pacientes com níveis de cortisol urinário livre não superior a 2 vezes o limite superior da normalidade e não superior do nível basal após 3 meses de estudo continuaram a receber sua dose aleatoriamente, em um estudo duplo-cego, com duração de 6 meses (isto é, nem a dose foi modificada nem transformaram em estudo aberto). Por outro lado, o estudo foi modificado de duplo-cego para aberto para todos os outros pacientes (com cortisol urinário ainda elevado) no mês 3 e a dose foi aumentada em 300 mcg duas vezes por dia. Após 6 meses, todos os pacientes entraram numa fase de estudo aberto que durou até o mês 12. Durante esta fase, se o nível de cortisol livre urinário ficou acima do limite superior de normalidade (LSN), a dose podia ser aumentada em 300 mcg duas vezes por dia (no máximo, 1200 mcg duas vezes por dia), em qualquer momento. Ao longo do tratamento no período de 12 meses, caso ajustes da dose fossem necessárias devido a eventos adversos, a dose podia ser reduzida em 300 mcg duas vezes por dia. Não foi usado grupo placebo porque foi considerado anti-ético.
Abaixo um resumo dos resultados:
- 61 de 103 pacientes tiveram uma substancial redução (≥50%) no cortisol livre urinário no mês 6;
- No mês 6, 15% (95% CI 7 a 22) dos pacientes no grupo de 600 mcg e 26% (95% CI 17 a 36) no grupo 900 mcg tiveram níveis de cortisol urinário livre igual ou inferior ao LSN sem necessidade de aumento prévio de dose;
- Em 3 meses, 16% (95% CI, 8 a 24) dos pacientes no grupo de 600 mcg e 28% (95% CI, 18 a 37) no grupo 900 mcg tinham cortisol urinário livre abaixo do LSN; 45 pacientes (28%) tiveram a sua dose aumentada: 29 (35%) no grupo 600 mcg e 16 (20%) no grupo 900 mcg. Com a inclusão de pacientes que tiveram um aumento da dose no mês 3, 16% (95% CI, 8 a 24) dos pacientes no grupo 600 mcg e 29% (95% CI, 19 a 39) no grupo 900 mcg grupo tinham normalizado os níveis de cortisol urinário livre em 6 meses;
- No mês 12, 13% (95% CI, 6 a 21) dos doentes no grupo de 600 mcg e 25% (95% CI, 16 a 35) dos do grupo 900 mcg tinham níveis de cortisol urinário livre abaixo do LSN. Em 20 dos 36 pacientes que normalizaram os níveis de cortisol urinário livre em 6 meses, os níveis mantiveram-se normais no mês 12. Os pacientes cuja dose foi reduzida para 300 mcg duas vezes por dia (5 pacientes) ou 600 mcg duas vezes por dia (6 pacientes) continuaram a ter os níveis de cortisol urinário livres normais.
- Controle parcial do hipercortisolismo foi conseguida em 18% e 13% dos pacientes nos grupos 600 mcg e 900 mcg no mês 6 e em 16% e 3% no mês 12, respectivamente;
- Pacientes com baixos níveis de cortisol urinário de base livre (≤ 5 vezes o limite superior do intervalo normal) tiveram uma maior taxa de resposta.
- A redução do cortisol urinário livre médio foi rápida e sustentada. Entre os 72 pacientes com hipercortisolismo descontrolado no meses 1 e 2, o hipercortisolismo permaneceu descontrolado em 66 pacientes (92%) em 6 meses e em 64 pacientes (89%) no mês 12;
- A redução nos níveis de cortisol urinário livre em resposta a pasireotide foi acompanhada por reduções no cortisol sérico soro e nos níveis plasmáticos de ACTH, bem como por melhora nos sinais e sintomas da doença de Cushing. O peso corporal, as pressões arteriais sistólica e diastólica e os níveis de colesterol LDL foram significativamente reduzidos, e os escores de saúde para qualidade de vida melhoraram. Isso ocorreu mesmo nos pacientes em que os níveis de cortisol urinário reduziram mas não normalizaram;
- Com relação aos efeitos adversos, o principal efeito foi desconforto gastrointestinal transitório. Efeitos adversos relacionados à hiperglicemia ocorreram em 73% dos pacientes, e 6% dos pacientes descontinuaram o tratamento em estudo por causa de tais eventos. Os níveis de glicose e de hemoglobina glicada aumentaram logo após o início do tratamento com pasireotide, necessitando da administração de medicamentos para controlar essas complicações. Tanto diabetes pré-existente quanto intolerância à glicose aumentaram o risco de eventos adversos relacionados à hiperglicemia.
Da seção “métodos”, retiro a transcrição dos conflitos de interesse, a seguir. “O estudo foi desenvolvido pelos pesquisadores acadêmicos e pelo patrocinador do estudo, a Novartis Oncology. Os dados foram coletados pelos pesquisadores com o uso de sistemas de gestão de dados da Novartis e foram analisados pela equipe de estatística da Novartis. Todos os autores contribuíram para a interpretação dos dados e para a escrita, revisão e alteração do manuscrito. O primeiro manuscrito foi elaborado por um dos autores acadêmicos e por um escritor médico financiado pela Novartis Pharma”. Particularmente, considero que, se todas as fases dos protocolos foram seguidas adequadamente e as análises realizadas eticamente, o patrocínio do estudo pela indústria farmacêutica não invalida os resultados. Na verdade, é muito óbvio o interesse da indústria na avaliação das moléculas nas quais ela está investindo. Interessantemente, não somos tão habituados a ler os conflitos de interesse, e, por isso, descrevo-os nesta postagem para exercermos nosso espírito crítico e para suscitar discussões sobre como devemos interpretar os resultados de trabalhos patrocinados.
Sobre a medicação, minha impressão inicial é que funciona em alguns pacientes (possivelmente naqueles em que o tumor expressa mais o receptor de somatostatina 5) e quando funciona, a resposta pode ser avaliada rapidamente (em 1 a 2 meses) e não vale a pena ficar aumentando a dose naqueles que não normalizaram. Até porque, possivelmente alterações na glicemia são muito frequentes. Vamos aguardar mais estudos. Contudo, vale a pena salientar a dificuldade de se tratar a DC e provavelmente existe uma subpopulação de pacientes com DC que se beneficiaria dessa medicação.
Era isso. Até mais.
André Gustavo P. Sousa
Comissão de Valorização de Novas Lideranças
Escrito por admin em março 27th, 2012 :: Arquivado em Atualizações,Endocrinologia
Tags :: Atualização, Doença de Cushing, Endoncrinologia, tratamento

RSS